domingo, 29 de março de 2015

Som de flauta e chimia de uvas da vó: caminhos da feira

Barulho de feira, onze e pouco da manhã. Gente por tudo, tendas lotadas, hortaliças e frutas orgânicas, olhos atentos ao viço dos vegetais. Sentado na caixa de papelão, um menino toca flauta, música Natalina de alguma propaganda antiga. Alheio a tudo, imerso no movimento exato de cada som, nem percebe o ruído das vozes e moedas ao seu redor. Ali, apenas ele e seu nirvana. De longe se escuta a melodia, vejo um sujeito cantarolando. Impossível resistir, uns fecham os olhos e outros, sem dar um piu, soltam o tilintar do dinheiro na bolsa de couro, mexendo os lábios para acompanhar a lembrança.

Em volta, o feirante que vende tomates atende com gestos e me alcança uma dúzia na sacola de plástico - um mínimo sopro no vento manso. Agradeço com os olhos. Nada que interrompa o momento. A nostalgia acaricia a pele com a mesma suavidade do garoto na flauta. Um círculo se forma próximo à cena, e quase ouço o tum-tá do seu  coração, com tantos ouvidos hipnotizados por suas notas. Alguém quebra minha atenção, batendo no meu ombro com urgência, olho para trás e escuto um sussurrar desconhecido, pedindo que eu colocasse uma moeda na bolsa do flautista. Saio da esfera mágica, cumpro o pedido e sigo o caminho das próximas compras.

Adiante, canto baixinho. Vem a lembrança da pequenice enquanto o tocar pungente do menino se afasta. De novo, sou desperta do enlevo, agora por uma quantidade grande de Uvas Isabel de um dos produtores. Na minha frente, com pose de protagonista, está a uva preta. Minha avó a usava na chimia tradicional, fazia sempre no verão e estocava em vidros de Nescafé com a tampa vermelha, no armário da casa de praia. Memória que a pele toca, como a música da flauta, minutos atrás. São uvas desta época, moça, teremos só até fim de março, depois no janeiro que vem. É levar agora, me diz o senhor da tenda, atento ao meu encanto. Fico ali uns minutos. Esqueço o cenário em torno e escolho os cachos, deito-os devagarinho no saco plástico. Aceito minhas mãos serem manchadas pelo cheiro do doce. Fecho os olhos, a fragrância se transforma naquele vapor que surgia do panelão. Cascas de uva Isabel com açúcar, um quilo de cada e água que cubra, fogo alto até ferver e depois baixo, o tempo todo, sem parar de girar a colher de pau, ensinava a vó. Ela seguia até conseguir o ponto em que as gotas pingavam da colher, uma a uma, vagarosas e contínuas. Com sorriso farto, desligava a chama.

 Termino meu passeio pela feira, com  todas as compras. Pulsando, meu quilo de uvas no carrinho, a música suave nos lábios e a promessa de chimia na tarde de sábado.

Nas próximas postagens, converso sobre minha versão da chimia. Com fotos, claro!

Obrigada pela visita!

Com carinho,

Betina

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Canapés de rabanete: resultado da feirinha ecologica dos sábados!

Porque amanhã é sábado!

Hoje é sexta, o dia começa não com um café árabe pleno de significado, mas com o instantâneo nosso de cada dia. O fim de semana está chegando, sim, mas na sexta ainda é a semana. Em especial agora, que fevereiro, a bem dizer, terminou, e a cidade está voltando.  Porto Alegre voltando a Porto Alegre, para a vida útil recomeçar. Adoro este balanço rotineiro que embala o ano. E uma das melhores coisas é a retomada de alguns hábitos e o começo de outros, como assumir o trajeto das caminhadas na Feira Ecológica dos sábados de manhã.  E então, amanhã é dia de feira, e como é bom!
Há duas semanas, no feriado de carnaval, fui fazer as compras de orgânicos pela manhã.  Não era tarde,   entre nove e dez, e a feirinha ja estava pra lá de movimentada. Delicioso de ver o dinamismo, a animação dos produtores, a vida radiante dos verdes, dos tubérculos,  das frutas ou das pimentas que ficam se exibindo nas tendas. Uma alegria só.  Gentes em conversas vibrantes, sujeitos em silêncio contemplativo no exame dos  alimentos. Aromas de temperinhos,  de legumes, da térmica de café, das iguarias, todos disputando a atenção do meu olfato. Os cheiros chegam a ser tangíveis,  me percebo por instantes pensando no temperamento dos temperos, calmos ou enérgicos,  apaziguadores ou briguentos. Feito nós.  A  feira é mesmo uma bela escola de percepções, de exercicio dos sentidos e de clicks para fora e para dentro.  De encontros com sabores, com memórias e até com partes nossas que vinham adormecidas.
Pois um destes encontros tive com o rabanete.
Foi a primeira coisa que plantei na vida, pequenina ainda, na horta da escola. Primeira serie, que eu lembre. Plantei, cuidei, colhi, levei pra casa, para servir no almoço. Não tenho registro se gostei ou não,  mas sim de que me orgulhei pela autoria daquele sujeito  vestido de vermelho forte, exibindo-se à mesa. Claro, topei com a figura outras vezes na vida, sabia de sua personalidade ardida, incisiva. Pungente. Mas muito sedutor, crocante e decidido. Mil adjdtivos, mas eu nunca sentia um pendor mais arrojado por este personagem de infância.  E foi ali, na feira daquele sábado,  que tive a ideia de fazer canapés com os tais rabanetes. Em casa, para a mesa do almoço-recordando a refeição que destinei à minha produção,  no passado- cortei os tais em fatias finas, como se fossem torradinhas, e por cima coloquei duas coberturas distintas, para dar variedade ao aperitivo. Uma, de queijo de cabra, mostarda e melado; outra, com o mesmo queijo, azeite de oliva, raspas de limão e pimenta calabresa em flocos. Fiz os adornos para embelezar os quitutes e servi. O resultado me alegrou,  as combinações ficaram estimulantes, o uso do rabanete no canapé funcionou, fiz uma criação rápida e fácil de aprontar, de repetir. Foi um belo reencontro com este produto, pois eu mesma, por algum preconceito, nunca tinha preparado nada que o envolvesse. No minimo, a experiência valeu como quebra de paradigma.
Tive outras percepções e descobertas naquela manhã,  com novos aromas e texturas, nas tendas por que passava. Mas esta é uma outra história.  O que me encanta num cenario como este é a reunião da saúde com o prazer, na simplicidade de um passeio rotineiro. No proximo post, mostro a foto dos canapés.
Bom final de semana!
Com carinho,
Betina

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sabor e Amor: para além da rima

Conversávamos a respeito do fenômeno 'sabor', ontem, nos caminhos do livro "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin. E lembrei, hoje pela manhã, que certa vez aqui no Blog aproximei, para além da rima, o sabor e o amor. Porque ambos contemplam os cinco sentidos, as emoções e a memória, os sentimentos e nossas reações físicas ao prazer do que estamos degustando ou vivenciando. 

Ainda ontem referi que o autor tem uma forma muito particular de abordar o campo sensorial: ele adiciona um sexto sentido aos cinco estabelecidos, o 'genésico', ou 'amor físico'. É com a multiplicidade de percepções que saboreamos um prato. E é com a mesma multiplicidade que experimentamos a vivência amorosa: o olhar do outro, a sua voz, o toque da pele de quem amamos, o seu cheiro e o seu gosto. Todos os sentidos pulsam para que o corpo registre a impressão como preciosa, e amplie este reconhecimento a vários centros do cérebro e, por conseguinte, do nosso corpo inteiro. O corpo passa a amar, e neste sentido é muito enriquecedor ler que o ilustre gastrônomo Brillat-Savarin, nascido em 1755 e falecido em 1826, já compreendia o amor físico como parte dos sentidos. E esta é a magia da semelhança entre os elementos 'amor' e 'sabor': há o componente perceptivo, sim, mas há, nos dois, a relevância indiscutível da emoção e das lembranças. 


Muitos de nós temos, num estalar de dedos, a memória de um doce que só uma avó ou tia executava com perfeição, ou o registro de um prato que saboreamos numa ocasião de encontro amoroso ou com amigos muito estimados. São circunstâncias que restarão em nós para sempre: quando evocarmos esta ou aquela receita, de imediato estará vivo em nós o momento em que saboreamos a textura do alimento, sua temperatura, seu gosto e cheiro, o som de sua crocância ou o silêncio de sua maciez. No entanto, estes aspectos adquirem significado apenas quando aliados à emoção associada a eles. Por quê? Bom, é um conjunto de fatores que nos faz vibrar  com uma "Lasagna al Sugo', para além do 'como-se-faz', dos ingredientes do molho, do ponto 'al dente' da massa. Eu diria que o processo é anímico: não é só a textura, o apimentado, a temperatura do prato, não é só o som do alimento à mordida ou só o gosto ou cheiro ou as cores dos legumes: importa o que o sabor nos faz sentir. Por isto, ontem referi que, para mim, ele é o sentimento pela comida. E é neste ponto que percebo sua existência como vizinha ao amor: há o teor físico imprescindível (equivalente à matéria alimento, no que tange ao sabor), mas o que conta, o que o torna amor, é vivenciado no campo emotivo:  aqui, importa o que o outro nos faz sentir. 

Do ponto de vista neuroquímico, há muito a contar sobre a compreensão atual do fenômeno 'sabor': há um livro maravilhoso sobre isto, de que já falei aqui, o "Neurogastronomy- How the Brain Creates Flavor and Why it Matters" (Gordon Shepherd, 2012). Em Português, "Neurogastronomia: Como o cérebro cria o sabor e por que isto importa". Na obra,  a abordagem neuroquímica caminha lado a lado ao olhar filosófico  de Brillat-Savarin em sua "A Fisiologia do Gosto", e traz pontos interessantíssimos sobre os circuitos cerebrais envolvidos na composição do sabor como experiência e, mais ainda, sobre o papel das emoções e da memória nestes circuitos.




E foi a partir deste estudo que lembrei do livro "La Natura dell´Amore", da psiquiatra e neurocientista italiana Donatella Marazziti, em que esta propõe explicações biológicas para o amor, baseadas em suas pesquisas na Universidade de Pisa. Em seu livro que estudei ao longo de 2006 e traduzi em 2007 para o Português do Brasil, "A Natureza do Amor", muitas são as aproximações possíveis com a vivência de saborear um alimento que 'nos toca a alma'. E este ponto é incrível: em todas as leituras, ainda que com a busca da explicação científica, se percebe a força daquilo que não pode ser explicado em todos os processos, o que fica sublime em nós: a percepção do sentir, que nos liga ao ser amado; no caso do sabor,  este sentir nos liga a uma vivência específica com um prato de nossa memória emocional. Um prato que nos lembra de algo ou de alguém precioso para nós, em nossa história de vida. 

No cerne de todos estes acontecimentos fisiológicos, encontramos este 'sentir' que ultrapassa a vivência sensorial para contemplar nosso campo subjetivo, recheado de emoções, de registros conscientes e inconscientes, de reflexões, de bagagens de nossas experiências. Apreciar um sabor é, por algum motivo, reconhecê-lo como pertencente ao nosso território de prazer, é aceitar que nos 'toca' e integrá-lo aos nossos códigos de "eu gosto disso". Tantas vezes, não há um único porquê, mas a união de diversos pontos. A sensorialidade é, por certo, a ferramenta que propicia que tenhamos a completa vivência do sabor. Interessante é observar que, algumas vezes, os cinco sentidos não dão conta de capturar a experiência: sentimos, mas a força do alimento é maior do que seu gosto, aroma, textura e por aí vai. Porque o significado que atribuímos a tal prato, ou a tal doce, ou a tal quitute, é tão profundo em nós que não há como gostarmos apenas porque os sentidos permitiram. Gostamos porque nos toca a pele, a emoção. Gostamos porque nos toca a vida, nos faz sentir um prazer maior que o físico: o prazer de estarmos vivos para sentir.


No livro "A Natureza do Amor", citado acima, há um trecho da obra [Conversas em Bolzano], do autor Sándor Márai que, no meu entender, traduz muito desta incógnita que é o sentir:

"Devemos nos resignar ao fato de que, se amamos alguém, não é por suas características, por sua beleza ou por seus dotes individuais; amamos tão-somente porque no Universo age uma vontade, cuja real substância não conseguimos entender, que se manifesta de formas sobretudo casuais para que o mundo possa renovar-se na sua perene rotação. É uma força que toca os corações e os nervos segundo critérios inexplicáveis, estimula o funcionamento dos hormônios e obscurece as mentes mais lúcidas. Nós, seres humanos, (...) estamos aqui para compreender esta força misteriosa, embora incapazes de decifrar suas intenções...".

É possível que o trecho valha também para a vivência do saborear as comidas que fazem parte de nossa história, embora em menor intensidade do que a usada pelo escritor em sua expressão sobre a experiência amorosa. Conhecermos mais do que nos 'toca os corações e os nervos segundo critérios inexplicáveis', sejam eles amores ou sabores, faz com que possamos conhecer mais de nós mesmos, e esta é sempre uma oportunidade de renovação.

Nos próximos posts, mais sobre a Neurobiologia do sabor! 

Obrigada pela visita!

Com carinho,
Betina
                          

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin: folheando sabores



Pois a postagem anterior surge de um instante mágico: esperando o almoço chegar, coloquei sobre a mesa uma das minhas leituras culinárias favoritas: "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin, livro de que já falei algumas vezes aqui no blog. E, quando vi, era a obra que ocupava o espaço de prato principal, posicionada sobre o jogo americano de palha leve. O guardanapo de tecido, um xadrezinho preto e branco, exibia-se de soslaio, na intimidade da mesa posta. Num relance, percebi no conjunto uma harmonia de cores, de sensações, de prazeres. Porque, se a Literatura nos alimenta, isto é ainda mais real quando falamos nestes escritos sobre a fisiologia do gosto. 

O livro é da editora Companhia das Letras, e meu exemplar é de 95. 

O texto nos faz adentrar no cerne de temas alimentares, vezes cotidianos, vezes inusitados, mas todos os capítulos (que o autor chama de "Meditações") são interessantíssimos, por serem uma reflexão apurada sobre o comer, o saciar, o saborear, e por aí vai. 

Fundamental é a leitura sobre os sentidos, de peculiar abordagem feita por Brillat-Savarin. Agora, há também que avançar os olhos para "Do Apetite", "Teoria da Fritura", "Da sede", "Sobre o fim do mundo", "As Damas", "A Digestão", "Da influência da dieta sobre o repouso, o sono e os sonhos", "Mitologia Gastronômica", e tantos outros. Quem folhear o livro, vai se surpreender- e eu apostaria isto- com os títulos e subtítulos, e não poderá interromper o paginar afoito, buscando outros assuntos e seus nomes curiosos. Por exemplo? "Virtude erótica das trufas", Influência da Gastronomia sobre a felicidade conjugal", "Influência financeira do peru", "efeitos da Gastronomia sobre a sociabilidade"...O índice parece, ao menos para mim, o mapa de uma cidade desconhecida que desejo explorar de canto a canto: leio a chamada "Longevidade anunciada aos gastrônomos", e fico imaginando o que o autor terá a dizer de tão único neste quesito. O índice também é como um  cardápio, vamos degustando cada nome, sentindo a vida de cada sabor imaginado, de cada título.

Esta obra é pura filosofia, através dos assuntos da mesa. Na orelha, encontramos: "(..) um elogio à amizade, à moderação, à delicadeza e à elegância, temperado com certa linguagem científica da época e com o indisfarçável prazer da boa mesa e pratos refinados".

E foi, num ato casual e repentino, que deixei o livro ocupar o centro da mesa enquanto o almoço não vinha. Acarinhando as páginas na passagem lenta de uma a uma, percebi que as "Meditações" do autor nos conduzem a percursos mágicos dentro de nós mesmos, e não apenas sobre a alimentação. É a nossa vivência humana na relação com o prazer que está ali expressa, em meu entender. 

Enfim, é uma leitura a ser vivenciada, esta. Com mastigares lentos, saboreantes, gostos reais ou imaginários, consistências muy particulares. E com força anímica para sentir o texto, com sua delicadeza e profundidade.

Depois de ter lido um dos capítulos, meu almoço chegou, e saboreei com demora cada nuance. Acho que 'sentir o sabor' vai bem além da referência aos sentidos presentes no comer: trata-se do sentimento que nasce, em nós, ao degustarmos a refeição também com nossas emoções, memórias, experiências, aspectos envolvidos neste conceito.

Bom, acho que o sabor é, sim, uma forma de sentimento pela comida. E esta obra nos faz pensar sobre isto.


Bom proveito!

Com carinho,
Betina

                     

A leitura como prato principal: "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Bem-vindo, Setembro!


Setembro é mês de almoço no pátio, com amigos de sempre. De piquenique imprevisto. E de ir à feira em chapéu florido, sol ameno. 
É tempo de amor primaverar, amor sereno. Tempo de bolo macio e fresquinho, 
em louça de vó, lanche da tarde. 
De abrir janelas, arejar a casa.
Tempo de flor abrir, ensolarando o jardim. 
É mês de sentar no campo, na toalha amarela, coisa de passar o dia. 
Descanso feliz, celebrante, 
tim-tim. 
Quitutes? À vontade. 
Preguiças, sonecas, risadas, brisas, sucos, sanduíches, maçãs, sonhares. 
Antes, agora?
 Relógios, fora.


 Setembro é todo primavera, 
 Espera, começo. 
Um ventar em sopro, flor-a-flor. 
Mês de sorriso manso, ritmo de dia nascendo, de ideia nascendo, de esperança nascendo. 
De livro nascendo, palavra-a-palavra. 
De amor nascendo, beijo-a-beijo. 
De trabalho nascendo, sol-a-sol. 
De alegria nascendo, dia-a-dia.

 Ah, todo mês é assim. 
E este é setembro, pra mim. 

A todos os amigos-leitores, 
desejo um belo 
Setembro em flor!


Com carinho,
Betina