domingo, 27 de março de 2016

Carpe!!!


E como amanhã  teremos uma nova segunda-feira cotidiana, passado o feriado de Páscoa, vale uma reflexão: saboreie o dia, para além das guloseimas e dos chocolates recebidos. Este saborear tem origem na ideia de 'aproveite o dia', presente na frase Carpe Diem. 

Trata-se de um aproveitar pleno da vivência das horas, e não apenas um 'passar' do dia, para que logo se vá a segunda, a terça, a quarta, a quinta e chegue, ensolarada, a sexta, e então o sábado, o domingo...e outra segunda. É assim que a vida 'passa', a gente mastigando a comida sem saborear, porque há só uma hora de almoço.

Um exercício de imaginação...Num bolinho de chuva, cada mordidinha traz a maciez, o aconchego da massa bege-clara, o crocante da casquinha, o perfume quente e o carinho que o açúcar  faz na pele, quando abrimos o quitute com as mãos. E tem o expresso, gole a gole: a merenda  nos reporta a memórias trazidas lá do fundo. Lembranças vêm pelo bolinho e pelo cheiro do café, denso e viçoso na xícara branca, mesmo se estivermos desavisados, atentos aos sentidos. E vêm o bem-estar e a gostosura de um intervalo na correria, a pausa de nirvana numa segunda-feira. Pois esse saborear pleno de uma pequena safadeza, bolinho de chuva com café, é o mesmo que podemos aplicar ao nosso dia rotineiro. Isso parte de uma decisão, ao despertarmos.

Quando saboreamos o tempo, cada segunda-feira é prazerosa em sua essência. Mesmo depois de um feriado longo. 

Então, bom finzinho de domingo, e bom começo de semana aos amigos!!

Abraços,
Betina

Parrilla, Francis Mallmann e o sabor como chave: aniversário de quatro anos do Blog!


E por falar em Parrilla, quero contar sobre o chef argentino Francis Mallmann, especialista na  exímia prática do fogo na Gastronomia. Mallmann é o premiado autor dos livros "Terra de Fogos" e "Sete Fogos", além de proprietário do Patagonia Sur, no bairro La Boca (site), em Buenos Aires, do 1884, de Mendoza (site), e do Hotel e Restaurante Garzon, no Uruguai (conheça aqui).


Quando falei no Villa Crespo, ontem, restaurante Porto Alegrense de inspiração portenha, logo em seguida lembrei de contar sobre esse chef. Fiz tal ligação através de dois elementos intrincados: a parrilla e, sem dúvidas, Buenos Aires. Mallmann realiza peripécias parrilleras fenomenais, e é nascido em uma província de Buenos Aires. 

Só depois fui perceber por que estaria abordando esses temas nesse final de semana. São, afinal de contas, assuntos muito vinculados à capital portenha, quase minha cidade natal, cidade que tenho no coração. E por que escrever sobre isso logo agora?

 Hoje o Serendipity in Cucina completa quatro anos, 
tendo nascido no fim da manhã  de 27 de março de 2012, em Buenos Aires.
 Estranho eu não ter me dado conta, mas é claro, agora, que a postagem sobre o Villa Crespo e a decisão de escrever sobre Mallmann vieram das  seguintes palavras-chave dentro de mim: Buenos Aires, Março, Serendipity in Cucina. 

Veja aqui a primeira postagem do blog.

Temos, sim, palavras-chave em nós. Elementos que estão ali, esperando para serem acessados pela via do coração. Quando chegamos a eles, por um gatilho aleatório, abre-se um portão de lembranças e emoções em nosso mundo interno. As palavras-chave nos propiciam um reencontro conosco, com partes guardadas e à espera de um chamado para serem relembradas, revividas, ressignificadas. 

Buenos Aires, Serendipity (serendipidade), Cucina (cozinha) e Serendipity in Cucina: são chaves de encontro e descoberta, em mim. Foi este o papel do nascimento do blog, em 2012, há quatro anos: despertar o (re)encontro com a culinária e seus símbolos em minha história, em primeiro lugar. Em segundo, e também relevante, o papel foi o de transmitir reflexões e descobertas, nos campos de forno-e-fogão, ao leitores e amigos. Cada um de nós, com suas palavras-chave, com este ou aquele gatilho de acesso a sentimentos e percepções.

O que vim descobrindo, com o tempo, nas pesquisas e escritas sobre a cozinha? 
Que os sabores são essenciais no acesso às nossas palavras-chave, no coração. Muitas vezes, para além da palavra, são os sabores que nos permitem chegar às emoções e às memórias mais escondidas. Onde uma palavra não é alcançada para essa ou aquela compreensão, muitas vezes é a comida que abre uma porta de rara fechadura, em nosso interior. 

Saborear é preciso!

Seguirei contando sobre o Francis Mallmann, em mais um ou dois posts. Depois, o foco será a Gastronomia uruguaia, através da experiência no restaurante Lo de Tere, que referi em postagens desse mês.

Agradeço aos leitores pela presença e carinho em nossos quatro anos juntos!

Abraços,
Betina

sábado, 26 de março de 2016

Sabores e sentidos no Villa Crespo, em Porto Alegre

Vista do interno, eis a fachada do Villa Crespo
(até com luminária típica!)
Dia desses, voltei ao Restaurante Villa Crespo, uma buenísima Parrilla Porteña na Av. Teixeira Mendes 1151, em Porto Alegre. Aliás, para quem ainda não sabe onde ir amanhã, domingo de Páscoa, essa é uma saborosa possibilidade! Sugiro reservar ou chegar cedo (tels. 51-9235.68.77 ou 3365.30.00), pois é daqueles lugares concorridos, em finais de semana e feriados. Tinha conhecido o local ano passado, e tomado nota para retornar outras vezes, de tão bom que é. Então, já alinhavando as mudanças no blog, fui há poucos dias, para saborear o cardápio e fotografar detalhes para um post. 

Minha perspectiva, ao falar dos lugares que me agradam, é expressar o todo:  o modo como me senti no ambiente, saboreei os pratos e fui antendida, ouvi a música, vivi o lugar. Por isso, o Villa Crespo chegou ao 'Serendipity in Cucina". Minhas primeiras visitas ao restaurante, em 2015, não poderiam ter sido melhores: em linhas gerais, as escolhas foram um queso parrillero de entrada, com o Chimichurri feito na casa, tempero picante e viçoso na medida, uma cerveza (que não pode faltar), um asado de tira com molhinhos de acompanhamento, uma batata com queijo Roquefort, e, de sobremesa, uma panqueca de dulce de leche...O lugar me fez sentir alegria, pelas deliciosas conversas e risadas daqueles almoços, sem dúvidas, mas também pela atmosfera festiva que existe ali. E foi essa atmosfera que fui buscar, na visita recente deste 2016.

Que tal o cardápio? Clica aqui!

Numa refeição, exercitamos nossos cinco sentidos, e quando todos são contemplados com sucesso, a memória torna-se tão saboreável como a própria ocasião: o Villa Crespo deixa na gente recuerdos assim: a celebração, a partilha, a comida, os cheiros transbordantes, as vozes dos comensais em seu domingo com amigos e família. E foi o que ocorreu, a memória das sensações me inspirou a voltar lá. Esse clima todo é muito bom! 


Há um aspecto interessante quando falamos sobre o saborear na vivência do comer fora: o sabor  não é um sentido, ele está atrelado aos sentidos. Para mim, o sabor é o sentimento do gosto. Num entrecot, num asado de tira ou num queso parrillero, está o prazer do gosto, a tentação do cheirinho típico, o visual convidativo das tábuas à mesa, o Piazzolla tocando ao fundo, a textura perfeita da carne junto à maciez da batata com Roquefort derretido...Tudo isso compõe o sabor. Agora, a coisa vai além: na experiência, está a memória desses elementos,  existe a história deles em minha vida, o meu laço com Buenos Aires, onde essas comidas compuseram meu cardápio de lembranças; estão também presentes as primeiras visitas ao restaurante, a cor de vinho tinto das paredes, as madeiras escuras e as pedras da decoração, todas trazendo aconchego, o som das palavras no cardápio, a cremosidade do dulce de leche, um bege-dourado ultrapassando as fronteiras da massa de panqueca e se espalhando pela louça branca... bom, há tantos simbolismos que compõem o fato de elegermos um local como vivo em nossa carta de sabores pessoais, que é possível citar apenas exemplos, pois cada um de nós visita um restaurante com suas bagagens.

Voltei lá  para o almoço, prestei atenção a elementos do cenário, conversei com o mozo que atendeu a mesa com excelência, o Felipe,  e, através dele, conheci um pouco da história do local. O Villa Crespo tem este nome em homenagem a um bairro de Buenos Aires, o original Villa Crespo (para saber mais, clique no link Barrio Villa Crespo CABA). O proprietário do restaurante é o mesmo do Tirol, renomado pelos filés tradicionais em nossa Porto Alegre, e um local como o Villa Crespo era um sonho seu. Conforme o Felipe, foi feita uma ampla pesquisa nas parrillas porteñas, antes de abrir este, em 03 de dezembro de 2013, e todos os detalhes (cores, atmosfera, luminárias, quadrinhos, cabide de pirulitos, garrafas nas mesas) foram inspirados em parrillas de Buenos Aires. 

E como é bom conhecer a história de um lugar! Este foi um hábito que adquiri com a escrita culinária e com a prática da cocina viajera, atividade de pesquisa (por conta e risco) em que viajo para conhecer a cozinha das paisagens, como fiz na Província de Girona, na Catalunha. Estar em um local, comer os sabores daquela cultura, aprender sobre seus produtos e seus territórios são fatores que se tornam parte da nossa memória e da nossa construção pessoal. Tem sido muito prazeroso viver isso através dos escritos, através do blog e das conversas com os restauradores e funcionários, pois são possibilidades de enriquecer de simbolismo, e de sentimento, uma refeição. Não tenho objetivo de tecer crítica de restaurantes, não sei fazer isso e não é meu escopo: vou num lugar para descobrir como me sentirei ali, com que alegria sairei de sua porta e através de qual memória desejarei retornar à sua mesa. Tendo sentido conforto, prazer e alegria, recomendo aos amigos! 



E o Villa Crespo, com certeza, merece recomendação! 
Para conhecer, clique aqui:Villa Crespo Porto Alegre 

Com carinho, e Feliz Páscoa!!

Betina



Outras fotos!

salada de rúcula com parmesão
detalhes das mesas
pirulitos com inspiração porteña

detalhes das paredes, vindos de Buenos Aires
Detalhes das paredes, vindos de Buenos Aires



























sexta-feira, 25 de março de 2016

Sugestão: salada para o almoço da Sexta-Feira Santa!

Pois a Sexta-Feira Santa me faz lembrar uma das especialidades da Vó Léia, e talvez muita gente reconheça como um clássico também de sua família: a salada de atum, batatas, cebolas, ovos duros cortados em quatro partes, azeitonas pretas e um marcado tempero de azeite de oliva, sal e vinagre....A receita era irresistível no sabor, nas texturas, na substância, no vigor do azeite acolhendo os elementos do prato. É uma especialidade freqüente em restaurantes portugueses, com bacalhau ao invés do atum. 

A receita preparada pela Vó era, sem dúvida, concorrência desleal para qualquer prato quente que ousasse fazer as vezes de prato principal; todos os ingredientes eram abraçados pela sedução untuosa do tempero, e era o sabor ou o perfume ou a textura ou o alvoroço de sensações do azeite de oliva, ou tudo junto, que dava o viço da salada...As batatas, cortadas em fatias grossas, eram de uma mordida tenra, enquanto a azeitona dava força ao conjunto...a cebola, escaldada, era disposta em anéis esparsos, e os ovos duros, apresentados em quartos, adornavam e, principalmente, substanciavam o prato. A bem da verdade, não sei explicar por que parecia uma refeição mil estrelas, mas lembro que tinha o conforto de almoço em casa de vó, de prosa longa em volta da mesa, de um cheirinho de comida  d´além mar. 

Bom preparo...e bom proveito!!!
Com carinho, 
Betina

Tempo de renovação

Queridos leitores, estamos quase de aniversário. Dia 27 de março celebraremos quatro anos juntos, neste blog, e me deu uma vontade enorme de vestir o "Serendipity in Cucina" em trajes de outono. E deu vontade também de respeitar as estações do ano, homenageando cada uma. Como estamos no Hemisfério Sul, bolei uma atmosfera que evoca o aconchego dessa época, os verdes dos panos de fundo e tons de creme nas letras, o vermelho forte do título fazendo lembrar os vinhos, e a estampa ao fundo, que sempre me soa a cozinha, num azulejo, numa toalha, na louça. Pode ser que, ainda nessa estação, eu sinta desejo de mudar, e surpreenda vocês com novas cores e figuras. O saboroso nos blogs é que permitem a liberdade, o formato dinâmico, as possibilidades de criação a partir de ingredientes variados. Misturando, temos uma nova receita. E isso sempre vale a pena!!!

Outras ideias estão chegando...Mudar é preciso.

Renovar nossas folhas é preciso.

Feliz Páscoa! 

Com carinho,

Betina

segunda-feira, 21 de março de 2016

Saboreando a vida, apesar dos pesares.

Olá!!

Escrevo este post com alguma hesitação. Pode parecer estranho conversar de amenidades, cozinha, viagens, sabores e alegrias em um momento de tanta crise em nosso Brasil. Refleti muito sobre isso, desde a semana passada, quando o projeto e o desejo de retomar o blog estavam pulsantes, em mim. E pensei: o prazer é parte saudável da vida, quando usado com moderação. Bom, mais além: o prazer à mesa, simbolizando o contato consigo mesmo, pelos sentidos, e com os outros, pela partilha, é parte essencial da saúde.

 Percebi que, por mais grave que seja a situação que enfrentamos como nação, devemos estar atentos aos cuidados com nossa alegria, serenidade, bem-viver, ou acabaremos inundados em ansiedades e emoções de conflito. Acho que o equilíbrio, nesse momento, está em não permanecermos apenas mergulhados nas notícias ou apenas alheios às informações de cada minuto. Viver o que está acontecendo, sim, participar, se assim quisermos, mas nunca descuidarmos de nosso microcosmos: nós mesmos, nossa família, nossa casa, nosso prazer em viver. Fundamental.

Então, decidi retomar. Existem a vontade e o gosto de escrever aqui no blog, claro, mas também existe algo que entendo como importantíssimo: a partilha das vivências de saborear a vida, aspecto inerente a todos nós. Afinal de contas, é inegável: saborear nos faz bem. Refiro-me a comidas, a lugares, a memórias, aos convívios, a atividades no lar que habitamos, à vida. 

No projeto de retomada, para celebrar os quatro anos que o Serendipity in Cucina completa no próximo domingo, 27 de março, criei quatro colunas temáticas: uma sobre viagens, que apresentei no post anterior, "Santa Serendipity"; outra, sobre restaurantes, bares e bistrots, na minha cidade ou nas que visito, "mesas aqui e acolá"; uma terceira: "A poética da casa", que tratará das atividades rotineiras em casa como oportunidade de contato consigo, de saborear o espaço em que se vive e, por fim, "Piquenique", de assuntos em geral associados à cozinha e ao prazer à mesa: atualidades, livros, filmes e reflexões. 

Começaremos juntos este novo tempo, aqui do Blog! 
Com ou sem crise, saborear é preciso!

Com carinho,
Betina

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Santa Serendipity: coluna de viagens

E volto ao "Serendipity in cucina", com radiante entusiasmo: uma seção sobre viagens,  desde aquelas de um dia, para saborear um café colonial no interior do Rio Grande do Sul ou passear pelas festas das cidades, às  mais distantes e aventurescas. E, se falamos em viagem, vem de imediato o tema das cozinhas por que passamos. Nessa coluna, entretanto,  o foco será a reflexão sobre os sentimentos e sensações que as saídas me despertam, além de aspectos objetivos sobre hotéis, serviços, restaurantes e escapadas que cada cenário oferece.

Cenário: férias no verão uruguaio, em Punta del Este, um daqueles dias radiantes de sol . Pois invoquei a Santa Serendipity, santa dos viajantes curiosos, para iluminar a decisão sobre o local de escolha do almoço. Sugeri aquele que tinha me despertado encanto, pelo site, mas em seguida lembrei da importância de entregar ao acaso os acontecimentos viajeiros. E o incrível foi que, depois de horas caminhando, depois de passar por três ou quatro bistrozinhos simpáticos, acabamos escolhendo o primeiro restaurante em que tínhamos pensado.  E sabe por  quê? Pelas graças da Santa Serendipity, estávamos passando na frente dele quando surgiu a pergunta "e agora???".

Foi sensacional ter parado ali! O lugar? "Lo de Tere". Dá para sentir que há um quê de especial, desde a entrada: a placa de madeira anunciando "Lo de Tere- una forma de ser restaurante" deixa a gente louca pra saber que histórias o local tem pra contar. 

Uma forma de SER restaurante. Está aí o segredo: essência. Contarei dele nos posts seguintes.

Claro, seguir a intuição nos trajetos e escolhas pode dar errado, às vezes. Mas mesmo quando a coisa não vai tão bem, escuto o desejo dos passos,  caminho adiante. O que descubro, numa boa parte das ocasiões,  é o benefício de ter errado e, por isso, acabar em outro restaurante ou passeio muito especial. Isso já me aconteceu muitíssimas vezes. 

Para nossa Santa Serendipity, o erro é o caminho para uma descoberta valiosa, se o viajante se propõe a aceitar as surpresas do lugar que o recebe. Palavra-chave? Entrega.

Você costuma dar espaço ao inusitado em suas viagens?

Com carinho,
Betina